sábado, 8 de janeiro de 2011

Madrugada Estranha

5:41 da manhã é uma hora um tanto estranha para um proletário estar escrevendo, principalmente se passou o dia trabalhando e ainda vai ter que trabalhar mais ainda em algumas horas. O que ocorre é que estou com vontade de escrever porém não há inspiração, Acredito que seja efeito de um terrível filme de nome "Paper Man" (Homem de papel), este nada tem a ver com o filme de Carlos Coimbra, um clássico filme nacional. O filme é sobre um escritor com problemas na criação e que apesar da idade avançada ainda tem a companhia de um amigo imaginário que se veste a la Superman com uma ridícula cueca amarela sobre uma malha azul.
Na verdade hoje foi um dia em que queria ficar solo em minha casa, longe das ruas na madrugada, sem drogas, álcool, apenas eu e minhas projeções furadas para o novo ano. Mas não sei porque sempre que fico quieto as coisas se movimentam até mim. Esse é um dos problemas de ser um tipo de pessoa que só atrai encosto, ou seja, os espíritos humanos mais estranhos e problemáticos de qualquer lugar sempre se juntam a mim com seus problemas e vicios.  
Hoje acordei tarde, pois a noite anterior tinha sido muito longa, não sei se foi o fato de ver uma mulher linda ser assassinada no meu local de trabalho (um shopping) ou talvez fosse puramente insônia.  Bom, quando acordei já tinha um show de rememoração do grunge (estilo musical que marcou o cenário "underground" nos anos 90) para comparecer, mas ainda tinha que trabalhar, quando cheguei lá aquele cenário me fez entrar numa bad trip daquelas, por isso desisti do show e decidi ficar em minha caverna mesmo. Foi nessa hora que o Paulista me ligou dizendo que estava com meu ingresso para o pub, disse a ele que não iria sair de casa, depois de alguma resistência desligou o tel com a velha frase "me liga se mudar de idéia".
Enquanto voltava para casa de ônibus lia o "Vagabundos Iluminados" do Kerouac fascinado com a idéia de subir uma montanha e desce-la aos saltos como o Japhy Ryder, mas sem toda aquela papagaiada zen lunática, na verdade comecei mesmo a esboçar um plano para realizar tal façanha. Cheguei em casa coloquei o jazz para rolar na vitrola e fui para cozinha, preparei um delicioso arroz com vegetais enquanto tomava um vinho barato horrível. Comi tudo o que tinha na panela e voltei ao livro e li avidamente até as 01:00 curtindo vários sons e tomando vinho. Achei que já era hora de procurar a cama, mas o sono não vinha, achei que a melhor solução seria um filme bem vagabundo que só Hollywood é capaz de fazer. Bem no meio do filme sou surpreendido pelo terrível barulho da moto do Paulista invadindo a garagem, ele chegou todo efusivo com algumas cervas e falando sem parar sobre a noite no pub e sobre as gatas que por la desfilavam. De repente ele lança aquele grande pacote de coca sobre o Factótum faz duas carreiras bem grande, da um tiro e me oferece o outro. Pow atirei com ele, alcancei uma cerva e sentamos no sofá ao som do Peeping Tom e começamos a falar de forma bem intensa, articulando idéias sobre os falsos valores e desejos das pessoas que caminham no planeta nesses tempos apocalípticos e de como não se dão conta que foram submetidos a padrões falsos de beleza e obrigados a desejar todo o monte de coisas que logo se tornam inúteis graças a grande capacidade invectiva da indústria e da mídia com seus marqueteiros  criadores de ilusões. A conversa estava fluindo bem, eu sempre fazendo citações de vários autores e o Paulista sempre falando de suas experiências. É sempre uma coisa muito doida ele me olha como seu fosse um desses catedráticos da universidade ou como se eu tivesse algo de diferente, por outro lado admiro demais a forma de como esse maluco viveu suas loucas experiências. Falamos sobre as mulheres de nossas vidas e o Paulista resolveu ir dormir, ele sempre é responsável com o horário de seu trabalho e tudo mais, já eu nem tanto, continuei cheirando uma vez que não consegui dormir, certamente terei um péssimo dia de trabalho mas eu não ligo já que odeio meu trabalho. Dou mais um tiro olho meus livros, discos, os maços de cigarros cheios e vazios, as latas de cerva e decido mudar o som, quero ouvir o Charlie Parker.

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